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É a economia, Costa!

05 Outubro 2015

O resultado das eleições legislativas desceu como um balde água fria para os socialistas. Muitos críticos do governo estão incrédulos com a recompensa que os portugueses deram a um Governo que conduziu políticas com que discordam, e que aplicou medidas de austeridade sem precedentes recentes, afectando grupos com grande peso eleitoral como os pensionistas ou funcionários públicos.

Haverá muitos factores a concorrer para explicar um resultado da coligação. Alguns deles são económicos, e Pedro Magalhães, no seu blogue, deu conta recentemente da evolução positiva tanto de indicadores de actividade (PIB, saldo orçamental e desemprego), como de sentimento económicos (confiança dos consumidores por exemplo).

Mas será que o voto económico, como é conhecida na literatura a associação entre a evolução da economia e os resultados eleitorais, influencia de forma relevante as eleições? A julgar pelos estudos conhecidos a nível internacional, a resposta é sim:

  • A vitória de David Cameron no Reino Unido no primeiro semestre do ano motivou um aceso debate sobre o tema. Vários economistas evidenciaram na altura a importância do voto económico no Reino Unido, e da sua sensibilidade à inversão das políticas de austeridade no final do mandato [exactamente como o Governo português fez]. A evidência para os EUA parece ser que a evolução da economia nos últimos 6 a 12 meses é decisiva, como defendeu por exemplo um Paul Krugman amargurado.
  • Um trabalho de Ruth Dassonnevillea (Universidade KU Leuven) e Michael S. Lewis-Beckb (Universidade de Iowa), publicado em 2014, que usa dados de 359 eleições em 31 países europeus entre 1950 e 2013, concluiu que na Europa o voto económico é inegável, embora mais forte em momentos de recessão do que de crescimento.

“Mostrámos que o voto económico em Portugal é importante, mesmo quando temos em conta o efeito de clivagens sociais e ideologia (…) [Mas] O impacto da economia no voto pode variar de acordo com o contexto político geral, a natureza do incumbente, a importância da economia como um tema (por exemplo quão má vai a economia e quanto é que as pessoas se devem preocupar), mas também em termos de causalidade (é o incumbente realmente responsável pela crise ou esta é importada?)”

Resumindo: a economia é importante no voto, mas a narrativa também conta — como aliás já tinhamos evidenciado esta semana. Costa será bem lembrado disso.

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