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É pouco provável que a VW esteja sozinha

24 Setembro 2015

A inacreditável história de como um dos maiores fabricantes de automóveis do mundo decidiu enganar os reguladores nos Estados Unidos para que os seus carros pudessem poluir mais a atomosfera, atingindo um melhor desempenho na estrada, surpreendeu tudo e todos no passado fim-de-semana.

Nos dias seguintes, a Volkswagen foi fortemente penalizada em bolsa, o CEO da empresa anunciou a sua demissão e os alemães ficaram mais preocupados do que com a crise grega. Mas a verdade é que, olhando um pouco para trás, já havia muitos sinais que poderiam fazer prever um acontecimento deste tipo e que deixam claramente no ar a ideia de que, só muito dificilmente, a empresa alemã estará sozinha como única prevaricadora:

  • Em 1998, já havia empresas automóveis multadas por tentarem dissimular o seu verdadeiro nível de emissões poluentes nos testes realizados pelos reguladores. E ao longo dos anos, este tipo de acções, e correspondentes multas, foram ocorrendo com regularidade, provavelmente a um nível muito mais baixo do que as fraudes que ocorrem na realidade.
  • Nos últimos anos, vários especialistas já avisavam para a possibilidade das marcas tentarem enganar os reguladores. Por exemplo, um artigo da revista especializada Road & Track indicava a baixa fiabilidade que testes estandardizados às emissões poluentes dos automóveis e à crescente capacidade dos engenheiros das empresas fabricantes de adaptarem os seus controladores de emissões ao exame que lhes iria ser feito. Há cerca de dois meses, uma responsável de um grupo ambientalista também avisava num artigo publicado pelo Euroactiv, para o risco de se estar a deixar os carros a gasóleo poluir muito mais do que é permitido.
  • As últimas décadas mostraram em vários sectores que, quando existe uma forte competição (entre as empresas e entre os funcionários das empresas), o potencial de ocorrência de fraudes em firmas de grande dimensão é elevado. Desde a manipulação da Libor na banca, até aos escândalos de fraude contabilística na WorldCom, vários casos foram sendo conhecidos. No entanto, essa pode ser apenas a ponta de um iceberg. Um estudo publicado em 2013 por três economistas intitulado “How Pervasive is Corporate Fraud?” calcula que existe uma probalidade de 14,5% de uma empresa num determinado ano praticar actos fraudulentos.

Não espanta por isso, que com este historial, se entre agora numa fase em que em diversos pontos do Globo (principalmente na Europa) se começa a pedir a realização de uma investigação mais abrangente às emissões automóveis e à forma como são fiscalizadas. Os resultados dessa investigação têm o potencial para colocar o sector automóvel em sérias dificuldades.

Também gostámos de ver:

  • Com um défice de 4,7% na primeira metade do ano, só o melhor resultado desde 1999 no segundo semestre garante ao Governo o cumprimento da meta o total de 2015, escreve o Público.