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O Excel de Rogoff novamente atacado

22 Setembro 2015

Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart lançaram o debate com o seu trabalho de 2010 sobre o efeito da dívida pública no crescimento que tanta aceitação teve entre os responsáveis políticos europeus: as economias crescem menos quando a dívida pública está a um nível mais elevado, particularmente quando ultrapassam a barreira dos 90% do PIB, escreveram os dois economistas.

Desde esse momento, vários economistas têm debatido, fiscalizado e criticado o trabalho de Rogoff e Reinhart, encontrando inclusivamente falhas nos ficheiros Excel usados pelos autores.

Agora, um paper publicado no início deste mês por quatro economistas através do Fundo Monetário Internacional (FMI) volta a colocar em causa a ideia de que possa haver um limite a partir do qual a dívida pública representa um obstáculo ao crescimento.

O trabalho intitulado “Is There a Debt-threshold Effect on Output Growth?” discute em termos teóricos qual a maneira mais correcta de analisar o impacto da dívida no crescimento e faz uma análise empírica dos resultados registados em 40 países entre 1965 e 2010. São 3 as principais conclusões:

  • Não se pode calcular a correlação entre dívida pública e crescimento sem ter em conta a dinâmica do nível da dívida, a heterogeneidade das realidades económicas e institucionais dos países e a dependência de factores como a evolução dos juros nos grandes bancos centrais mundiais. Isto não terá sido feito, dizem os autores, no trabalho de Rogoff e Reinhart, condicionando a validade dos seus resultados.
  • Aquilo que é decisivo para o crescimento não é tanto o nível da dívida pública, mas a trajectória que esta apresenta. Os autores assinalam que os países com um rácio da dívida no PIB que esteja já acima dos 50% a 60% e continue a subir tendem a apresentar taxas de crescimento no longo prazo mais negativos. No entanto, destacam, “desde que a dívida esteja numa trajectória descendente, um país com um elevado nível de dívida pode crescer tão rapidamente como os seus pares no longo prazo”.
  • Subidas do nível da dívida em tempos de crise, não têm necessariamente efeitos negativos no crescimento, desde que tenham um carácter temporário. Os autores concluem que são as subidas persistentes da dívida que prejudicam o desempenho de uma economia a prazo e que “se o rácio da dívida no PIB sobe temporariamente (por exemplo para ajudar a alisar flutuações do ciclo económico), então não há efeitos negativos de longo prazo no crescimento.

Em jeito de conclusão, os autores deste estudo publicado pelo FMI defendem que aquilo que é fundamental na gestão da dívida pública é dar garantias que uma subida da dívida pública não será permanente. Uma ideia que parece ser algo diferente da estratégia de ataque rápido ao défice e à dívida seguida pela troika, com limitado sucesso, em países como a Grécia e Portugal.

Também gostámos de ver:

  • As acções da Volkswagen estiveram ontem em queda livre por causa do escândalo das emissões. A Reuters explica como é que um dos maiores fabricantes mundiais de automóveis tentou enganar os reguladores (e quase ia conseguindo), deixando os seus carros poluir muito mais a atmosfera do que aquilo que era detectado nos testes.