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Os dilemas da Fed na primeira subida de juros da década

16 Setembro 2015

O banco central norte-americano decidirá amanhã se aumentará a taxa de juro central pela primeira vez em quase uma década e as opiniões sobre se o deve fazer estão divididas.

O dilema de Janet Yellen e restantes membros da Reserva Federal não é novo na história da Fed (15 vezes desde 1965, conta o Business Insider), o que não o torna mais fácil de resolver: manter os juros baixos por tempo demais contribui para bolhas nos mercados financeiros, subi-los cedo demais poderá colocar em causa a recuperação, ainda frágil – especialmente num contexto de grande incerteza na economia mundial.

Jeff Lacker, o presidente da Reserva Federal de Richmond, um dos que defende uma subida mais cedo que tarde, apresentou os seus argumentos recentemente:

  • A economia norte-americana está a crescer e o consumo a aumentar. Pelo caminho, a taxa de desemprego caiu para 5,3%, metade do valor registado no pico da crise.
  • A taxa de inflação nos últimos seis meses está já acima de 2% (embora ainda estando abaixo desse nível na média dos últimos 12 meses)
  • Uma subida de juros poderá ter impactos negativos fora dos EUA, mas não o suficiente para afectar a recuperação da maior economia do mundo.
  • A recente volatilidade nos mercados também não deverá afectar os fundamentais da economia.
  • A taxa de juro real está em valores negativos (inferior à inflação) na maior parte dos últimos seis anos, o que já não se justifica e alimentará inevitavelmente excessos no sistema financeiro.

Num texto interessante publicado no Financial Times, Scott Minerd, responsável por uma casa de investimentos, acrescenta que por duas vezes nos últimos trinta anos (no final dos anos 80 e dos anos 90) a Fed adiou subidas de juros devido ao receio dos impactos nos mercados e na recuperação. O resultado foram bolhas de activos e recessões.

Do outro lado da barricada não há tanta certeza sobre a saúde da economia norte-americana. Lawrence Summers, numa entrada no seu novo blogue, defende que a Fed nada faça, e apresenta os principais argumentos para a manutenção da taxa de juro zero:

  • Apesar da queda no desemprego, os salários estão a subir pouco e as expectativas do mercado para a inflação de médio prazo mantêm-se abaixo da meta de 2%.
  • Os últimos indicadores económicos nos EUA foram fracos, aconselhando a um adiamento da decisão.
  • A incerteza sobre a economia mundial é demasiado grande para arriscar uma subida de juros que não é urgente. (E como lembra a The Economist subidas de juros fora de tempo podem custar caro, que o diga a Suécia que subiu juros apenas para ter de inverter políticas pouco tempo depois)

Joseph Stiglitz também defende a manutenção da taxa zero. Num texto do Project Syndicate, o prémio Nobel, acredita que mais do que com o risco de inflação alta – que é muito reduzido, defende – a Fed tem de considerar os impactos das suas medidas no emprego e na desigualdade. É que a recuperação ainda está para chegar aos mais pobres e desfavorecidos nos EUA que precisam de juros baixos por mais tempo.

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