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Quantos imigrantes tem realmente a UE capacidade para receber?

15 Setembro 2015

A tentativa de entrada de milhares de refugiados da Síria e Iraque veio trazer para o centro do debate um tema que na Europa já devia há muito ser prioritário: deve ou não a União Europeia ser mais permeável à entrada de fluxos migratórios dentro do seu território?

Entre os que são contra um aumento da imigração, um dos principais argumentos utilizados é o de que a UE já ultrapassou a sua capacidade económica para receber mais imigrantes, estando pressionada especialmente por um elevado nível de desemprego. Mas será mesmo esse o caso? Estará mesmo a Europa a ultrapassar os seus limites na absorção de imigração?

Uma análise efectuada pelo think tank Bruegel, usando como ponto de comparação os Estados Unidos, conclui claramente que não.

Os dois autores da análise começam por assinalar que nos Estados Unidos são concedidos todos os anos cerca de um milhão de autorizações de residência permanente a imigrantes. É o chamado cartão verde, que dá a quem entra direitos semelhantes aos dos cidadãos norte-americanos, excepto no que diz respeito ao voto em eleições. Do milhão de entradas, cerca de 120 mil dizem respeito a refugiados.

Assumindo que nos Estados Unidos as entradas autorizadas de imigrantes estão de acordo com a capacidade de absorção da economia, vale a pena verificar quantos imigrantes poderia receber a Europa se usasse a mesma política de entradas que é aplicada pelas autoridades norte-americanas.

Para que a análises possa levar em conta as diferentes características da UE e dos EUA, é utilizado o mesmo critério seguido pela Comissão Europeia para definir o sistema de quotas de distribuição dos refugiados pelo Estados membros.

Assim, a comparação com os EUA leva em conta a dimensão da População (a UE é maior), a dimensão do PIB, a pressão exercida pelo desemprego (na UE é maior) e o número de aplicações espontâneas de refugiados feitos em cada região.

Deste modo, levando estes factores em conta, se a UE decidisse abrir as suas portas tanto como os EUA poderia receber por ano cerca de 1,27 milhões de imigrantes, entre os quais um pouco mais de 150 mil refugiados. Este valor supera claramente, os 871 mil estrangeiros a quem foi concedida a cidadania europeia em 2013.

Mesmo que, em vez de se considerar como critério uma combinação dos quatro factores, se considere apenas o desemprego (e o facto de a pressão exercida na Europa ser actualmente maior do que nos EUA), a UE poderia receber mais de 950 mil pessoas de forma permanente, sendo 114 mil refugiados.

Por isso, a conclusão dos autores é simples: a Europa tem, mesmo com um nível de desemprego elevado, capacidade para receber bastante mais imigrantes.

Não só temos espaço suficientes para permitir a entrada de mais refugiados na Europa, como os dados sugerem que temos espaço suficiente para lhes garantir um estadia permanente.

Utilizando o critério de quotas, Portugal receberia mais 45 mil imigrantes (cerca de 0,43% da população), se quisesse ser tão aberto como os EUA.

Para além desta comparação com os EUA, há outros motivos para não temer que a capacidade europeia para receber imigrantes está esgotada. Vários estudos apontam para a vantagem da economia europeia em abrir mais as suas fronteira.

Uma análise feita por dois economistas da Harvard Business School que compila os estudos já feitos sobre esta matéria, chegava a duas conclusões que deveriam servir para tranquilizar aqueles que mais perigos vêem na chegada de imigrantes a território da UE:

  • A probabilidade e a magnitude dos efeitos adversos da imigração nos mercados de trabalho dos países que os acolhem são substancialmente mais baixos do que aquilo que é percepcionado.
  • O efeito orçamental da entrada de imigrantes é ligeiramente positivo para os países de acolhimento.

Também gostámos de ver:

  • Jeremy Corbyn é o novo líder dos Trabalhistas no Reino Unido. O The Guardian faz um bom resumo de quais são as ideias do homem que é agora o principal adversário e alternativa a James Cameron.