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Os erros da troika na Grécia

28 Julho 2015

As próximas duas semanas serão marcadas pelas negociações em torno do próximo programa de ajustamento grego, o terceiro em cinco anos. Dado o espectacular falhanço dos dois primeiros programas, importa perceber o que correu mal.

Olivier Blanchard, o ainda economista-chefe do FMI, escreveu há uns dias um artigo polémico em que refuta as principais críticas ao desempenho da troika no país (fazendo lembrar um exercício semelhante de Marco Buti, o principal ideólogo da Comissão, em 2013).

O texto mereceu resposta de várias economistas, com destaque para Ashoka Mody, um dos economistas do FMI que desenhou o programa de ajustamento da Irlanda (entretanto saiu do FMI), mas também de Guntram Wolff, presidente do Bruegel, ou Paul Krugman.

Aqui ficam os principais argumentos e contra-argumentos:

 

A troika pagou aos bancos do Norte da Europa ou evitou o contágio?

Blanchard diz que esta não é a forma de olhar para a questão. Em 2010 estávamos demasiado próximos da queda do Lehman Brothers para arriscar o colapso de algum grande banco europeu, defende.

Mody discorda da tese do incalculável risco de contágio. Num texto publico no Bruegel, lembra que poucos dias depois da queda do Lehman, o Washington Mutual caiu, impondo perdas a accionistas e credores, e não aconteceu nada de mais. Sublinha que as regras do FMI forçariam a uma reestruturação da dívida grega logo à cabeça, e que se o problema era garantir a estabilidade os bancos franceses e alemães, então teria saído mais barato recapitalizar diretamente as instituições financeiras destes países.

Guntram Wolff concorda com Blanchard na avaliação que muita austeridade na Grécia era inevitável, mas isso não desculpa o adiamento da reestruturação da dívida. É que mesmo que tal não aliviasse o ajustamento orçamental nos primeiros anos, uma reestruturação teria pelo menos afastado a sistemática desconfiança quanto à insustentabilidade dos desequilíbrios gregos que minou os dois programas de ajustamento.

 

A troika aliviou a austeridade inevitável ou contribuiu para a depressão?

Olivier Blanchard argumenta que não só não houve austeridade a mais, como foram os fundos da troika que permitiram à Grécia um ajustamento orçamental mais lento. Sem este apoio financeiro, a redução do défice primário de mais de 10% do PIB teria de acontecer de um dia para o outro.

Mody recusa que se possa colocar a questão na dicotomia entre existir o apoio que foi concedido à Grécia ou não existir, de todo, apoio financeiro: o FMI existe, afinal, para prestar assistência aos seus Estados-membros. Dito isto, o economista não tem dúvidas que a queda de quase 25% no PIB grego depende crucialmente da austeridade que foi aplicada, e cita vários artigos do FMI que apontam nesse sentido.

Paul Krugman analisa a relação entre a variação no PIB e a variação dos saldos estruturais nos países da Zona Euro entre 2009 e 2013 e conclui que a Grécia nem sequer é um caso estranho: o PIB caiu na justa medida da austeridade aplicada.

 

A troika foi aprendendo com os erros ou repete-os?

Blanchard argumenta que a troika foi ajustando as suas políticas e aprendendo com os seus erros aos longo dos anos.

Mody contesta. Se assim fosse não se estaria a desenhar para a Grécia um programa de ajustamento que prevê saldos primários positivos e crescentes que vão de cerca de 1% do PIB para 3,5% do PIB daqui a três anos. Este esforço adicional matará a recuperação. Krugman argumenta o mesmo e já antecipa uma saída da Grécia da Zona Euro.

Numa outra dimensão, a das reformas estruturais, Guntram Wolff defende que a troika aprendeu um pouco com alguns erros, o problema é que já foi tarde. Diz o presidente do Bruegel que a recuperação económica grega falhou porque não foram implementadas, logo à partida, reformas profundas a favor da competitividade e produtividade (incluindo a abolição do 13º mês, melhoria das regras de concorrência e combate à corrupção no país). O FMI veio a defender este caminho mais tarde, mas aí a fadiga da austeridade já tinha ocupado o seu lugar, escreve.

 

A troika decide dentro de restrições políticas ou deve desafiá-las?

No texto que ficará como um dos seus últimos escritos como economista chefe do FMI, Blanchard defende ainda que há limites políticos ao que os restantes governos podem pedir aos seus eleitores, e que isso ajuda a explicar as dificuldades em avançar com reestruturações, ou com o pacotes de financiamento no contexto dos programas de ajustamento da troika.

Mody lamenta que o FMI se coloque nesta posição: na sua opinião, revela que a instituição foi dominada pelos governos europeus mais poderosos — uma crítica que se ouve com frequência dos representantes das economias emergentes. A função do Fundo, defende, é também a de pressionar melhores decisões económicas em contraponto com as preferências políticas dos governos.

 

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