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Os três erros de cálculo do Syriza nas negociações

15 Julho 2015

Alexis Tsipras deverá levar hoje ao parlamento grego o acordo a que chegou em Bruxelas na passada segunda-feira e ainda quatro diplomas que os seus colegas europeus lhe exigiram para terem mais certezas de que a Grécia vai fazer aquilo que promete.

É um resultado que fica claramente aquém das expectativas criadas na Grécia (e em muitos pontos da Europa) quando o Governo Syriza tomou posse há cinco meses e por isso não é de espantar que uma parte dos deputados do partido do Governo se preparem para votar contra em protesto com as cedências de Tsipras na negociação.

Como é que o primeiro-ministro grego chegou do discurso confiante das primeiras semanas do seu mandato até aqui? A explicação pode ser encontrada em 3 erros de cálculo muito significativos que foram feitos pelo Executivo grego durante estas negociações:

  1. Atenas pensava que, com os mercados a reagirem com pânico à possibilidade de uma saída do euro, os líderes europeus ficariam fortemente pressionados a encontrar um acordo, cedendo às pretensões gregas. Na realidade, o que aconteceu foi, com excepção das taxas de juro das dívida e das acções gregas, a reacção dos mercados no resto da zona euro, incluindo países periféricos, foi muito calma. Para que isso fosse assim, o Banco Central Europeu desempenhou um papel fundamental, quando iniciou o seu programa de compra de obrigações a partir do início de Março (o anúncio foi feito poucos dias depois da vitória eleitoral do Syriza). Os títulos de dívida de países como Portugal, Espanha ou Itália estiveram, durante todo este período, a ser sustentados pelas compras do banco central, o que contribuiu para que não se registassem subidas radicais nas taxas de juro. Este cenário de serenidade nos mercados reforçou a ideia nas lideranças europeias de que, agora, a zona euro estava mais bem preparada para suportar um cenário de Grexit. A confiança foi subindo de tal forma que, na última cimeira, a Alemanha convidou mesmo a Grécia a sair do euro.
  2. O Syriza estava confiante que a situação financeira grega não se iria deteriorar de forma rápida e que o BCE continuaria a apoiar os bancos gregos com o financiamento que eles precisassem, o que daria mais tempo para uma negociação. Na realidade, o que aconteceu foi uma queda bastante abrupta da economia, com efeitos muito negativos nas receitas fiscais, e uma fuga de depósitos dos bancos e capitais do país que tornaram a situação grega muito mais frágil. E, perante este cenário, o BCE deu a machadada final nas aspirações do Governo Tsipras de ter mais espaço de manobra negocial ao congelar o financiamento de emergência que concede aos bancos gregos. Os bancos fecharam, controlos de capital foram impostos e o governo teve uma amostra daquilo que poderia acontecer quando os gregos deixassem de ter dinheiro para levantar.
  3. O Syriza esperava que nestas negociações contaria com o apoio dos Governos da zona euro que nos últimos anos têm feito mais críticas à austeridade, especialmente a França e a Espanha. Apesar de no final da última cimeira, François Hollande ter garantido que colocou todo o seu peso político contra uma saída da Grécia do euro e do lado de um acordo, ao longo dos últimos meses o que se foi vendo nas reuniões do Eurogrupo e nos conselhos europeus foi uma permanente unanimidade contra as posições assumidas pela Grécia. E mesmo no acordo final agora obtido é muito difícil vislumbrar o impacto de uma eventual posição de força assumida por Hollande, uma vez que a quase totalidade da proposta inicial alemã acabou por ficar vertida na declaração final.

Também gostámos de ver:

Temas de que vai ouvir falar hoje:

  • A Grécia volta a estar no centro das atenções, com o Governo grego a tentar fazer passar no parlamento os quatro diplomas exigido pelo acordo da cimeira do euro. Uma deserção muito significativa de elementos do Syriza poderá conduzir a uma alteração dos equilíbrios políticos na Grécia.
  • A China publica os dados do crescimento do PIB no segundo trimestre. Com a recente queda da bolsa ainda a quente, será importante verificar se a economia está a conseguir evitar a tendência de abrandamento.