Voltar à lista

É oficial, o euro deixou de ser uma divisa irreversível

13 Julho 2015

Esta manhã, depois de 17 horas seguidas da cimeira europeia mais longa da história, os líderes da zona euro chegaram a um acordo em relação ao que tem de ser feito para iniciar negociações formais para um novo programa.

A Grécia foi pressionada a assumir mais austeridade, a aprovar as medidas no parlamento até quarta-feira, a aceitar o envolvimento do FMI no novo programa e a colocar activos do Estado num valor até 50 mil milhões de euros num fundo gerido em conjuntos com outros países europeus (em particular a Alemanha) para que vá fazendo mais privatizações e abatendo a dívida. Alexis Tsipras aceitou várias das medidas, apesar de se mostrar particularmente relutante.

No entanto, mesmo que um acordo venha a ser obtido, algo ficou já perdido para sempre na união monetária europeia: a ideia de que o euro é uma divisa irreversível que um país que a tenha adoptado nunca irá abandonar.

Esta ideia era uma parte importante do projecto da moeda única, era a grande diferença entre o sistema de câmbios fixos que tão atacado foi pelos mercados nos anos 90 e uma moeda que deixava de dar hipóteses aos mercados para apostarem numa desvalorização cambial de um determinado país. Foi por isso que, quando criaram a moeda, os Estados nem sequer previram legalmente a saída de um país da zona euro.

A crise soberana europeia já tinha vindo abalar fortemente a convicção de que o euro era irreversível. Muitos nos mercados começaram a pensar que, afinal, havia países que podiam estar em risco. Ainda assim, as declarações públicas de vários políticos e as tomadas fortes de posição assumidas pelo BCE, tornavam possível que, passada a crise sem nenhum país sair do euro, ficasse reforçada a ideia de que, apesar dos desequilíbrios económicos, os políticos nunca deixariam cair nenhum dos Estados membros.

Agora, mesmo que um acordo com a Grécia se venha a concretizar, essa confiança pode estar totalmente comprometida. E o golpe final foi dado por esta frase:

No caso de nenhum acordo poder ser atingido, deverão ser oferecidas à Grécia rápidas negociações para uma saída temporária da zona euro, com uma possível reestruturação de dívida.

Esta declaração fez parte da proposta enviada pelo Eurogrupo à cimeira da zona euro para que os líderes pudessem discutir o que iria acontecer à Grécia. Depois de várias declarações de responsáveis políticos europeus a aceitarem como hipótese uma saída da Grécia do euro, viu-se pela primeira vez num documento oficial europeu uma proposta efectiva de desmembramento da zona euro.

Além disso, a proposta foi feita pelo maior país da zona euro. Foi Wolfgang Schauble que levou esta frase aos seus colegas ministros das Finanças, parecendo querer convidar a Grécia a sair do euro ao acenar com a possibilidade de uma reestruturação de dívida mais significativa.

A reacção dos líderes ao documento foi muito variada, é certo, com Hollande aparentemente a liderar aqueles que não querem aceitar uma saída da Grécia. Mas a questão fica colocada: com a nova abertura revelada para um saída (mesmo que classificada de “temporária”) de um país do euro, o que acontecerá de cada vez que um país voltar a entrar em crise na sua economia e em desentendimento com a liderança europeia em relação às políticas a seguir?

Certamente que os mercados, de uma forma ainda mais rápida do que agora, irão atacar a dívida pública desse país e isso será uma mensagem constante, não só para a Grécia já nos próximos dias, semanas e meses, mas também para Estados com finanças públicas frágeis e sujeitas à conjuntura como Portugal.

Também gostámos de ver:

Temas de que vai ouvir falar hoje:

  • No rescaldo da cimeira europeia, o Eurogrupo ainda tem na sua agenda para hoje a votação para a escolha do presidente do Eurogrupo. O actual presidente e o espanhol De Guindos disputam o lugar.