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O verdadeiro peso da dívida grega e o que isso significa para as negociações

07 Julho 2015

Depois do claro “não” no referendo grego, e com a pressão sobre a situação financeira do Estado e dos bancos gregos a intensificar-se, a urgência para que se atinja um acordo entre a Grécia e os seus credores é cada vez maior. Parece ser mesmo uma questão de dias até que o Governo grego possa ver-se forçado a agravar os controlos de capital impostos ou mesmo a emitir uma espécie de nova divisa que exista em simultâneo com o euro.

Poderia ser útil por isso encontrar razões para que as duas partes fiquem mais próximo de um acordo. E é isso que Paul De Grauwe, num artigo publicado no Voxeu, tenta oferecer.

O economista belga faz uma análise da dívida pública grega e critica a forma como domina a ideia que esta, a um nível equivalente a 180% do PIB, apenas é sustentável se a Grécia garantir excedentes orçamentais primários muito significativos.

De Grauwe diz que há um engano nesta ideia dominante: é que o cálculo dos 180% do PIB apenas é feito com base no valor nominal da dívida, não levando em consideração o verdadeiro encargo com a dívida que a Grécia tem ao longo dos anos. O facto de, nas reestruturações entretanto realizadas, o prazo de amortização ter sido bastante prolongado e de as taxas de juro terem sido reduzidas faz com que o economista conclua que, na realidade, o valor da dívida pública em termos reais seja metade do valor nominal.

Isto significa, de acordo com os cálculos apresentados neste artigo, que a dívida pública grega pode ser sustentável, sem necessidade de excedentes orçamentais primários, mas apenas com a obtenção de um crescimento médio da economia de 2% (em termos nominais).

Que conclusões para as negociações se podem retirar destes cálculos? Para Paul De Grauwe, isto significa que os credores deveriam ser menos exigentes nas medidas de consolidação orçamental que pedem à Grécia.

Impor medidas de austeridade partindo princípio que a dívida pública grega é mesmo de 180% do PIB é um erro grave, afirma, dizendo que tal acontece porque os políticos europeus “preferem viver num mundo de ficção” em vez de assumirem perante os seus eleitores que já perdoaram uma parte significativa da dívida à Grécia.

Paul De Grauwe não o refere, mas também do lado grego o suposto elevado peso da dívida é apresentado como argumento para defender uma nova reestruturação da dívida.

A verdade é que, se fosse assumido pelas duas partes que a dívida grega não era afinal assim tão insustentável, ficava muito mais próximo um acordo em que as medidas de austeridade seriam mais leves e a reestruturação de dívida deixaria de ser uma prioridade.

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Temas de que vai ouvir falar hoje:

  • Dia decisivo (mais um) na crise grega. O novo ministro das Finanças, Euclides Tsakalotos, apresenta aos seus colegas do Eurogrupo as novas propostas gregas para um empréstimo de 30 mil milhões de euros a 2 anos. A seguir, Alexis Tsipras faz o mesmo numa cimeira de líderes da zona euro.