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O euro falha na Grécia mas o dólar não falha no Porto Rico?

02 Julho 2015

O Porto Rico, um território norte-americano nas Caraíbas, saltou para as primeiras páginas esta semana após o seu governador declarar que o Estado não conseguirá pagar a sua dívida de 73 mil milhões de dólares.

Os paralelismos com a Grécia — “o Porto Rico da Zona Euro” — foram imediatos, até porque a associação entre os dois Estados é bem anterior, como evidencia este artigo da Economist de 2013:

Como a Grécia, o Porto Rico é lugar cronicamente pouco competitivo preso numa união monetária com um vizinho mais rico e produtivo. A economia da ilha é também dominada por um sector público grande e ineficiente.

Daniel Gros, do CEPS, um dos defensores da estratégia de ajustamento europeia liderada pela Alemanha, aproveitou a ocasião para actualizar um trabalho de comparação, mostrando semelhanças, em particular os problemas institucionais das duas economias (corrupção, burocracia) e, sublinhando uma diferença fundamental: o Porto Rico faz parte não só de uma união monetária, mas também de uma união orçamental, recebendo transferências do Estado central (os EUA), as quais estão vedadas à Grécia na Zona Euro.

Com o exercício, Daniel Gros argumenta que o caso de Porto Rico prova que o problema grego não nasce nas disfuncionalidades da Zona Euro, mas é essencialmente o resultado dos problemas nacionais que a impedem de crescer — tal como aconteceu com o Porto Rico:

A performance do Porto Rico em termos de sub-emprego e pobreza é ainda pior que o da Grécia apesar (alguns dizem por causa) das enormes transferências orçamentais que recebe. Este mau desempenho na ausência de austeridade imposta externamente deveria também ser vista como uma indicação que os problemas da Grécia hoje podem ser muito menos devido à imposição de uma ajustamento pouco razoável pela troika, mas muito mais devido a problemas internos estruturais.

O autor segue depois para afirmar que a razão pela qual se diz que os problemas na Grécia são o falhanço do euro — enquanto ninguém diz que o incumprimento do Porto Rico é um falhanço do dólar — é o facto de a Grécia ter sido “obrigada” a ajustar pela troika, enquanto o território norte-americano se ver forçado a ajustar por forças de mercado:

Na Grécia, tanto a provisão de liquidez aos bancos como os problemas de dívida têm uma carga politica porque ambas estão nas mãos das instituições oficiais. No Porto Rico, em contraste, ambos os temas são determinados pelo mercado.

Na Grécia, o Governo e o povo grego sentem que têm de batalhar os estrangeiros, isto é, as outras instituições políticas. No Porto Rico, o governo (e os bancos) tem um problema com as força anónimas do mercado e os investidores. É por isto que ninguém argumenta que o dólar falhou quando o Porto Rico falha, mas muitos argumentam que o euro falhou se a Grécia falhar.

O contributo de Daniel Gros evidencia que os problemas de uma economia não se esgotam na sua participação numa união monetária e que uma união orçamental não resolve todos os problemas. Mas seria interessante que:

  • Continuasse o raciocínio sobre em que medida um mecanismo orçamental de contenção de choques perante crises graves poderia ter aliviado o aumento do desemprego (que na Grécia é o dobro do registado no Porto Rico) ou aliviado uma redução do PIB que é já de 25% na Grécia, um nível semelhante aos registados na Grande Depressão e o dobro do registado em Porto Rico.
  • Elaborasse sobre que lições se podem tirar da participação de estados mais pobres, frágeis e menos competitivos “presos” (para usar a expressão da The Economist) em uniões monetárias.

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Temas de que vai ouvir falar hoje:

  • A crise grega continua a marcar a agenda com quatro dias pela frente até ao referendo de domingo.