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O regresso da Grécia ao clube dos incumpridores

30 Junho 2015

A Grécia entrará em default em relação ao FMI hoje. O incumprimento face ao FMI, em si, não irá alterar significativamente a situação em que a Grécia já se encontra. O problema mais imediato está no financiamento dos seus bancos e esse já ficou fortemente condicionado com a decisão tomada pelo BCE no fim de semana de não aumentar o valor do financiamento de emergência que concede ao sistema financeiro grego — e poderá agravar-se amanhã caso o banco central coloque mais dificuldades no financiamento aos bancos gregos em reacção ao incumprimento e à extinção do programa de ajustamento grego.

Mas esta nova entrada em default do Estado grego é, do ponto de vista histórico, muito significativa, porque representa o regresso da Grécia a uma condição que, durante séculos teve com muita frequência, mas que nas últimas décadas tinha conseguido evitar com a entrada no clube da União Europeia.

Olhando para as tabelas que acompanharam o famoso working paper de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, “This Time is Different”, verifica-se que a Grécia, nos 160 anos entre 1848 e 2008, esteve quase metade da sua história a viver episódios de default, com a particularidade de cada novo período de incumprimento ser mais prolongado do que acontece na maior parte dos outros países.

Assim, a Grécia viveu nesse período cinco episódios de default face a credores estrangeiros. As primeiras décadas após a independência foram de permanentes falhas. O primeiro iniciou-se em 1826 e durou 17 anos a ser resolvido. Depois, logo em 1843, começa outro período de incumprimento, também com a duração de 17 anos, até 1859. Em 1860, inicia-se logo outro default, que iria durar 19 anos.

Vive-se depois um intervalo, em que o cumprimento no pagamento da dívida é conseguido com mais regularidade. Há um default que dura 4 anos em 1894, só se regressando a uma situação semelhante durante a Grande Depressão, em 1932, no episódio de default mais longo de 33 anos.

Com a entrada da Grécia na União Europeia e depois no euro, os mercados assumiram que os defaults eram coisa do passado. Mas o aproveitamento de anos de taxas de juro baixas para aumentar o endividamento e a incapacidade para, sem o controlo da política cambial, fazer face à crise, colocou a Grécia novamente sobre forte pressão financeira. E um novo default terá agora de ser registado…

Também gostámos de ver:

Temas de que vai ouvir falar hoje:

  • O incumprimento grego ao FMI e a extinção do programa de ajustamento acordado com as instituições europeias.
  • Será publicado o indicador de confiança dos consumidores norte-americanos, assim como um dos principais índices de evolução do preços das habitações.