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Quando a dívida pública gera crescimento

25 Junho 2015

Jaume Ventura e Hans-Joachim Voth, professores das universidades Pompeu Fabra e de Zurique, publicaram esta semana no NBER um artigo provocador sobre um dos temas mais quentes da actualidade

Será que há dívida pública boa e dívida pública má? Os autores dizem que sim, ou melhor, defendem que há situações em que a rápida acumulação de dívida pública pode acelerar a transformação estrutural das economias. Foi o que aconteceu na Revolução Industrial no Reino Unido do século XVIII, e pode bem estar a passar-se hoje em dia em algumas partes do mundo.

Uma condição para que tal aconteça é que estejamos perante mercados de crédito deficientes, defendem os economistas. Nestes casos, e na tese que propõem e modelizam, o contributo da dívida pública para a aceleração da transformação economia surge pela forma como incentiva a passagem de recursos de sectores tradicionais para novos sectores — o qual, no entanto, chega de forma menos directa do que imaginam muitos dos promotores das vantagens do endividamento público.

A história é esta:

No Reino Unido do século XVIII a nobreza, que acumulava grande parte da riqueza, investia em actividades pouco produtivas e tradicionais, como a agricultura, e era pouco dada a actividades lucrativas e arriscadas.

Neste contexto, o investimento em novas indústrias, como ferro e têxteis, ficou por conta dos empreendedores que procuravam oportunidades mais lucrativas. Como os mercados de crédito funcionavam mal, a sua capacidade de acesso a financiamento era pequena e daí resultou terem de financiar os seus investimentos com os lucros (o que torna o seu crescimento mais lento).

E é aqui que entra a dívida pública como acelerador. O aumento do endividamento do Estado britânico (em boa parte para financiar guerras) ofereceu aos nobres, conservadores nos seus investimentos, uma oportunidade de aplicações mais lucrativas que a agricultura e outras actividades tradicionais (enquanto os empreendedores se mantiveram nos negócios mais arriscados e mais lucrativos que dívida pública).

Com o interesse na dívida pública, os nobres deixaram de aplicar dinheiro nas actividades tradicionais, aliviando a procura por mão de obra e outros factores. A consequente redução dos custos na economia ajudou os empresários a aumentarem os lucros. E como o financiamento das suas actividades dependia em grande parte do reinvestimento dos lucros (já que os mercados de crédito estavam limitados) a dívida pública acabou por indirectamente acelerar a transformação estrutural da economia.

E assim, a dívida transformou-se em crescimento!

Jaume Ventura e Hans-Joachim Voth defendem que este tipo de mecanismos, em que bolhas de activos contribuem para aliviar as restrições causadas por fricções nos mercados de crédito, estão mais presentes do que imaginamos. Algo semelhante pode, por exemplo, justificar a rápida ascenção da economia chinesa.

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