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A escolha dos gregos desmistificada

18 Junho 2015

Os gregos merecem sair do euro porque não fizeram qualquer esforço para evitar este destino. A ideia tem vindo a ganhar força principalmente na Alemanha, mas encontrou esta semana um forte aliado na Itália.

Francesco Giavazzi, o economista que é conhecido por defender a ideia da austeridade expansionista, escreveu um artigo no Financial Times em que defende que “os gregos escolheram a pobreza, deixem-nos ter aquilo que querem”.

Givazzi diz que a Grécia não fez nos últimos anos praticamente quaisquer avanços na consolidação orçamental e nas reformas estruturais, por isso não há outro caminho que não seja sair do euro, até como castigo pela falta de esforço.

A teoria pode ser útil para aliviar as consciências de que tem decisões difíceis para tomar nos próximos tempos, mas será que tem realmente aderência à realidade? Terão os sucessivos governos gregos sido assim tão maus alunos que mereçam um castigo?

Karl Whelan escreve no Bull Market uma resposta a Giavazzi em que são colocadas em causa muitas das ideias avançadas pelo italiano:

  • Givazzi diz que durante cinco anos não existiram progressos, por exemplo, da reforma da administração pública, sendo feita uma redução muito pequena dos funcionários públicos, que entretanto já foi praticamente revertida pelo actual governo. Olhando para os números, contudo, é difícil sustentar esta ideia. Em 2009, havia 907 mil funcionários públicos na Grécia. Em 2014 são 651 mil. É uma diminuição de 255 mil, mais de um quarto, que pode ser revertida pelo actual Governo em apenas 15 mil funcionários cujo despedimento foi considerado ilegal pelos tribunais.
  • O economista italiano diz que a Grécia não mostrou capacidade para adoptar as medidas difíceis que são precisas para reduzir o défice. Mas olhando para as estatísticas, a Grécia baixou o défice de 15,6% em 2009 para 3,5% em 2014, a redução mais pronunciada de toda a zona euro, incluindo Portugal e a Irlanda. Nas pensões, vistas como uma área em que há ainda muito por fazer, Karl Whelan recorre a relatórios da Comissão Europeia para defender que foram várias as reformas realizadas, que conduziram por exemplo ao aumento significativo da idade de reforma efectiva.

Whelan critica ainda a ideia defendida por Francesco Giavazzi de que a saída da Grécia libertaria a Europa para resolver outros problemas mais importantes que tem de enfrentar. E deixa um ataque final ao italiano, recordando que Giavazzi elogiou a decisão das autoridades norte-americanas de deixarem cair o Lehman Brothers, poucos dias antes do Globo entrar numa profunda crise financeira.

Depois de quatro meses de negociações que dificilmente poderiam correr pior, o cenário de uma saída do euro foi passando de um mero receio para uma forte possibilidade. E o que não faltam, nesta fase, são motivos para cada uma das partes comece a pensar que o melhor, se calhar, é a Grécia sair do euro. Convém é que encontrem correspondência com a realidade.

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Temas de que vai ouvir falar hoje:

  • Realiza-se no Luxemburgo a reunião do Eurogrupo que se esperava poder resolver a crise grega. As expectativas são agora muito mais baixas depois de quatro dias de recriminações e desentendimentos entre as partes.