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Uma negociação feita a três

17 Junho 2015

Para amanhã está agendada uma reunião do Eurogrupo da qual já muito poucos esperam que possa sair um acordo para a questão grega, tais são os sinais públicos de desentendimento que têm vindo a ser dados pelo Governo grego e pela troika nos últimos dias.

Das declarações feitas por alguns dos principais responsáveis políticos envolvidos pode-se retirar contudo uma conclusão: as negociações são mais do que nunca um assunto em que três partes (e não apenas duas) vão ter de chegar a algum tipo de entendimento, sendo que não é fácil encontrar uma combinação que conjugue os diferentes interesses:

  • De um lado está a Comissão Europeia, que representa em larga medida a posição dos diversos governos da zona euro (excepto o grego, claro), e que quer que o Governo grego apresente medidas de consolidação orçamental mais credíveis, com mais poupanças nas pensões, alargamento da base do IVA e manutenção das reformas nos mercados laborais. Os Governos da zona euro recusam ainda avançar nesta fase para uma reestruturação da dívida grega, que implicaria perdas para eles próprios difíceis de explicar aos eleitorados nacionais.
  • Depois, há o FMI que, como explicou Olivier Blanchard recentemente, defende igualmente que é inevitável que a Grécia vá mais longe nos cortes de despesa nas pensões e nos salários e no alargamento da aplicação da taxa máxima de IVA a mais produtos. Ao contrários dos governos da zona euro, contudo, o Fundo defende que tem de haver um alívio do peso da dívida grega, que será tanto maior quanto menor for o esforço de redução do défice que ficará acordado.
  • Por fim, do lado do Governo grego, depois da proposta que entregou aos credores, a posição tem sido a de não aceitar mais medidas de austeridade nas pensões, nos salários e no IVA, preferindo outras alternativas (consideradas pouco credíveis pela troika) para garantir as metas do excedente orçamental primário. Atenas continua ainda a defender que deve ser desde já acordado um alívio da dívida, suportado por todos os credores oficiais.

Isto torna mais difícil imaginar que tipo de acordo pode ser obtido nos próximos dias para evitar um default grego. De facto, se a Grécia conseguisse chegar a um entendimento com os seus parceiros do euro, em que as medidas nas pensões e no IVA seriam mais pesadas do que pretendia Atenas mas mais leves do que o exigido actualmente por Bruxelas, surgiria imediatamente um problema entre a zona euro e o FMI.

É que no Fundo, considera-se que se as medidas ficarem abaixo do que está a ser pedido, é preciso garantir que se faz um alívio imediato da dívida grega, com um perdão imediato de parte dos empréstimos concedidos pelos países do euro à Grécia. E mesmo que as medidas fossem totalmente aceites pela Grécia (o que parece improvável), o FMI diz que um alívio da dívida seria preciso, embora desta vez bastasse um adiamento dos pagamentos e uma nova redução de taxas de juro.

Perdoar dívida, principalmente de uma forma imediata com redução da dívida em termos nominais, é algo que, depois do efeito na opinião pública europeia dos últimos meses de negociações, parece estar completamente fora dos planos da grande maioria dos líderes europeus, que podem preferir arriscar os impactos de uma saída da Grécia do euro e apresentarem essa factura aos seus eleitorados.

Numa altura em que Tsipras diz que o FMI “tem responsabilidades criminais” na crise grega e Juncker afirma que “não quer saber do Governo grego”, é difícil não pensar que estas diferenças tão profundas de opinião podem ser mesmo inultrapassáveis.

Também gostámos de ver:

  • A Suíça está a conseguir que a sua política monetária expansionista (para o franco não se apreciar mais) não resulte numa bolha imobiliária, diz a Bloomberg. Será este o exemplo a seguir na política macroprudencial?

Temas de que vai ouvir falar hoje:

  • A reserva Federal norte-americana termina a sua reunião mensal e os mercados vão estar com as atenções viradas para o que irá ser dito sobre o começo do ciclo de subidas de taxas de juro. Em combinação com a crise grega, pode haver motivos para importantes flutuações cambiais nos mercados internacionais.