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Uma desigualdade mais “invisível”

11 Junho 2015

Que a desigualdade de rendimentos aumentou durante as últimas décadas nas economias mais avançadas é um facto já comprovado por vários estudos (não apenas os de Thomas Piketty), mas continua a haver muito por saber sobre a forma como o fenómeno se tem vindo a processar.

Olhando para a realidade dos Estados Unidos e centrando a sua atenção nos rendimentos retirados do trabalho (e não do capital), quatro economistas publicaram um estudo no NBER, intitulado “Firming Up Inequality” e que contém uma conclusão surpreendente.

A questão colocada pelos autores é a seguinte: quanto é que do aumento da desigualdade de rendimentos se deve ao agravamento das diferenças dos salários praticados entre as empresas e quanto é que se deve ao aprofundamento das diferenças dentro das empresas?

A resposta a que chegaram, olhando para uma base de dados de firmas norte-americanas entre 1978 e 2012, é que a explicação para a maior desigualdade está nas diferenças entre as empresas e não dentro das empresas.

De facto, se é verdade que os CEO e os gestores mais bem pagos ganham bastante mais agora do que há 30 anos atrás, não se pode chegar à mesma conclusão quando se vê o seu rendimento em termos relativos face aos dos outros trabalhadores da sua empresa. Este rácio — do vencimento do CEO face aos outros empregados, tem-se mantido estável, registando mesmo uma ligeira descida, nos últimos 30 anos.

Sendo assim, o que explica a maior desigualdade global de rendimentos é que as empresas que pagam melhor aos seus empregados têm aumentado de forma muito significativa o seu diferencial face às empresas que pagam mal.

A explicação para isto, segundo os autores, é que as empresas se estão a tornar cada vez mais especializadas, com algumas a apostar em sectores que exigem trabalhadores altamente qualificados e bem pagos e outras em sectores com modelos que dependem essencialmente de mão de obra barata.

Isto cria, diz o estudo, uma desigualdade que pode ser menos perceptível pelas pessoas.

Em vez dos rendimentos mais altos crescerem dentro das empresas, as empresas que pagam mais estão agora a oferecer salários ainda mais altos. Isto pode tornar a desigualdade mais invisível, uma vez que cada indivíduo não vê a desigualdade a aumentar entre os seus pares.

Para Portugal, que continua a ter dificuldade em abandonar um modelo de crescimento baseado nos salários baixos, uma realidade deste tipo serve de aviso sobre onde é que a população do país vai ficar situada nos escalões de vencimento à escala mundial.

Também gostámos de ver:

  • Um dos poucos argumentos em defesa do mandato de Sepp Blatter que continuam a ser apresentados é o de que favoreceu os países mais pobres. Mas terá sido mesmo assim? O FiveThirtyEight olhou para os resultados obtidos desde 1998 pelas selecções nacionais de todo o Mundo e conclui que não, que afinal o desempenho dos países mais pobres até se tornou pior do que no passado.
  • Vários bancos internacionais têm reformulado as suas lideranças desde o início da crise. A Bloomberg verificou quais as instituições que, nos seus resultados, mais ganharam e perderam nos últimos anos.

Temas de que vai ouvir falar hoje:

  • O INE apresenta os dados da inflação para Portugal durante o mês de Maio. Mais uma oportunidade para verificar se, com a travagem da queda nos combustíveis, a economia portuguesa está a reduzir o risco de entrada num processo de deflação.